Linguagem não é (só) sobre comunicação

Há algumas semanas, eu resolvi passear pelos blogs da Superinteresssante. O objetivo era aprender a falar sobre ciência de um jeito simples e claro, sem os vícios da linguagem acadêmica. Saiu melhor do que encomenda: não apenas tive uma aula de jornalismo científico como me deparei com um texto que serviu de inspiração para este primeiro post do Língua Franca.

O texto em questão se chama “Sobre estrangeirismos inúteis”, e foi publicado no Blog do Alexandre Versignassi em fevereiro de 2017. Antes que você reclame, eu sei que o post é velho. Se serve de consolo, o tema é muito mais: queixas contra “estrangeirismos inúteis” circulam entre nós desde 1923, quando um cardeal português publicou um glossário de termos franceses que estariam se instalando feito posseiros no coração da língua portuguesa. Para ele, muitas dessas palavras eram “estrangeirismos inúteis”. E, como tais, poderiam macular a “formosura da nossa linguagem” (o que quer que isso signifique).

Se no início do século XX a preocupação era com as palavras francesas, os puristas do século XXI apontam sua artilharia para os empréstimos do inglês. E o Alexandre Versignassi não é exceção: no seu post contra “estrangeirismos inúteis”, ele reclama da maneira como muita gente, por influência do inglês, estaria abusando da palavra “sobre”.

O que motivou o desabafo dele foi o modo como a imprensa traduziu o discurso da Emma Watson na cerimônia do Oscar (sim, de 2017). A atriz disse “Feminism is about freedom”, e o povo traduziu como “Feminismo é sobre liberdade”. Para muita gente, passou batido. Para o Versignassi, incomodou.

Se você está entre os que não estranharam, aqui vai a explicação. Acontece que o “sobre” do português e o “about” do inglês não são (ou não eram?) exatamente sinônimos. Olhando de perto, dá para notar que o nosso “sobre” tem uma mania: ele só aceita ser associado a coisas que tenham um assunto, como livros, filmes e blogs. Por isso, dá para dizer que “este blog / livro / filme é sobre linguagem”. Com isso, estamos dizendo que o assunto do blog – ou do livro, ou do filme – é a linguagem.

Já o “about” é uma preposição bem mais saidinha. Além de se dar bem com coisas que tenham um assunto (como blogs, livros e filmes), ela ainda dá match (ops) com palavras como “life” (“vida”), “success” (“sucesso”) e “feminism” (“feminismo”), cujo significado não tem nada a ver com a ideia de assunto. Confere só: “Life is about being happy” (algo como “O sentido da vida é a felicidade”), “Success is not about never failing” (“Ter sucesso não é acertar sempre”, em tradução mega livre) e “Feminism is about freedom” (“A questão central do feminismo é a liberdade”).

Resumo da ópera: o “about” vai bem com um amplo leque de parceiros, enquanto o “sobre” só vai bem com palavras que remetem à ideia de assunto. Por isso, quando alguém manda um “Feminismo é sobre liberdade”, pode acabar machucando ouvidos mais sensíveis.

Mas como é que uma coisa assim – uma simples palavra de duas sílabas sendo usada de um jeito diferente – machuca tanto? Por que, exatamente, isso incomoda? Segundo o Versignassi, incomoda porque é inútil. O português, diz ele, já tem a expressão “dizer respeito a”, que traduziria perfeitamente o “about” nos contextos em que o “sobre” não funciona. Por isso, em vez de escrever “Feminismo é sobre liberdade”, os colegas jornalistas deveriam ter escrito “Feminismo diz respeito a liberdade”.

Há dois problemas com esse argumento. O primeiro é que… pô, sério? “Feminismo diz respeito a liberdade”?! Sobre isso, o que eu posso dizer é o seguinte: para mim – e para todos os não-linguistas que eu consultei – essa frase definitivamente não soa natural. Simplesmente não é uma maneira convencional em português de dizer que “a principal questão suscitada pelo movimento feminista é a liberdade”. Se eu estiver certo, então o português realmente não tem (ou não tinha) uma forma concisa de expressar essa ideia. E, desse ponto de vista, importar do inglês esse uso do “about”, e incorporá-lo às possibilidades do “sobre”, não é tão inútil assim.

Um equívoco semelhante é cometido quando o Versignassi comenta o caso de “eventualmente”. Para ele, quem diz “Eventualmente, eu terminei meu TCC” está macaqueando desnecessariamente um uso do inglês (“Eventually, I finished my dissertation”), quando o correto seria dizer “Finalmente, eu terminei meu TCC”. A lógica dele parece ser a seguinte: nós não precisamos importar do inglês um novo sentido para a palavra “eventualmente” porque, afinal de contas, já temos o bom e velho “finalmente”.

Faz todo sentido – só que não. Do mesmo jeito que “dizer respeito a” não equivale a “about”, “finalmente” não equivale a “eventually”. E onde está a diferença? Bem aqui: o “finalmente”, mas não o “eventually”, dá a entender que a ação sobre a qual se fala já deveria ter acontecido antes. Em português claro: se você diz “Eu finalmente limpei meu all-star branco”, está sugerindo que o tênis estava imundo há tempos, e que só depois de muita enrolação você tomou vergonha na cara e decidiu limpá-lo.

Já o “eventually” não tem nada disso. Tanto que dá para usar essa palavra em frases no futuro, como em “He will understand eventually”. Nesse caso, é impossível traduzir como “Ele vai entender finalmente” – uma tradução bem mais apropriada seria algo como “Ele vai acabar entendendo”. Moral da história: “finalmente” não equivale a “eventually”, do mesmo jeito que “dizer respeito a” não equivale a “about”.

Mas esse nem é o ponto principal. Muitas vezes, a palavra importada (ou o uso importado) realmente expressa a mesma ideia já veiculada por algum termo da língua importadora. Estes seriam os “estrangeirismos inúteis”, contra os quais o Versignassi se rebela. E o português está, sim, repleto deles. Um exemplo: quando surgiu a palavra “táxi”, já existiam as expressões “carro de praça” e “automóvel de aluguel”. Outro: quando a gente importou “deletar”, o “apagar” já habitava nossa língua há tempos. E tem ainda o caso de “atacar”, que é bem semelhante ao do “sobre”: quando os portugueses começaram, por influência do francês, a usar esse verbo em expressões como “atacar os inimigos”, não foi porque faltasse a eles a opção de dizer “combater os inimigos”.

Por que, então, os brasileiros do século passado importaram esses “estrangeirismos inúteis”? A resposta tem a ver com uma aula que todo mundo teve lá no Ensino Fundamental: a aula sobre denotação e conotação. Se você estava dormindo nessa hora, segue um resumo ilustrativo: as palavras “fezes” e “merda” têm a mesma denotação (referem-se aos mesmos, por assim dizer, objetos), mas conotações bem diferentes (uma é técnica, a outra é chula). Se a linguagem fosse só sobre comunicação, a conotação nem deveria existir – afinal, palavras com conotações distintas podem comunicar a mesma coisa. Mas não é assim que funciona: a linguagem também serve para conotar.

Se a aula tivesse sido sobre microssociologia (e não língua portuguesa), o professor poderia ter explicado a mesma coisa de um jeito diferente. Poderia dizer que quem fala “fezes” quer transmitir uma imagem de alguém com conhecimento técnico, enquanto quem diz “merda” quer se vender como uma pessoa subversiva e disposta a chocar (ok, faz tempo que “merda” não é mais tão chocante assim, mas você entendeu). Assim como as roupas, o cabelo, a tatuagem e o comportamento social, a linguagem é um meio de construir – ou reivindicar, como alguns dizem – uma imagem pública. Para isso, existe a conotação.

Mas o Alexandre Versignassi sabe disso. Tanto que ele arrisca, no post, uma explicação para o uso desse “sobre” importado. Para ele, quem fala assim só quer “exibir a própria anglofilia”. Faz sentido: embora o comentário tenha um quê de petulância elitista (“gostar dos Estados Unidos é meio ridículo, e ficar ostentando isso só faz você pagar mico”), sua lição não é essencialmente diferente daquela difundida pelos microssociólogos: nós escolhemos, estrategicamente, o modo como vamos falar tendo em vista a maneira como queremos ser vistos.

Mas peralá. Se o “sobre” importado serve para construir uma imagem de pessoa cool (ou brega, dependendo do seu ponto de vista), então não dá para dizer que ele não tem utilidade. Você pode até não concordar com os objetivos de quem fala assim (“que cafona ficar querendo parecer americano”), mas não dá para negar que esse jeito de usar o “sobre” serve a um fim bem específico.

É provavelmente por isso que o Versignassi oferece uma segunda justificativa para a sua implicância. Se esse “sobre” não é inútil, ele parece dizer, então no mínimo é um obstáculo à comunicação eficiente (e, por uma razão ou pela outra, deveria ser banido para todo o sempre do sistema solar). Bom, não existe jeito fácil de dizer isso, então vou ser direto: não estou ciente de nenhum grão de evidência em favor da hipótese de que o “sobre anglófilo” dificulta a comunicação.

Este é um ponto importante. O Versignassi garante que enunciados com o “sobre” importado “mal fazem sentido na nossa língua”. Ao mesmo tempo, ele dá a entender que a versão com “diz respeito a” é perfeitamente compreensível. Do ponto de vista científico, o que ele está propondo é uma coisa ótima: uma hipótese clara, direta, sem qualquer ambiguidade e facilmente testável (e, portanto, falsificável). A hipótese – segundo a qual brasileiros entenderão mais facilmente “Feminismo diz respeito a liberdade” do que “Feminismo é sobre liberdade” – é ousada e interessante, mas, enquanto não for testada (e mesmo depois disso!), deve ser tratada como o que ela é: uma hipótese, e não uma certeza. Afinal, ciência é sobre colocar nossas certezas à prova o tempo todo – e o Alexandre Versignassi, que gostou de Sapiens tanto quanto nós dois, sabe bem disso.

Como eu não resisto à curiosidade científica, decidi fazer um experimento informal. Perguntei a três brasileiros que não sabem inglês qual era, na opinião deles, o significado da frase “Feminismo é sobre liberdade”. Depois, analisei as respostas dadas para verificar se eram uma descrição correta do significado de “Feminism is about freedom”. Resultado: todas as três respostas revelavam uma compreensão adequada da frase em português. Moral da história: mesmo lendo uma frase isolada, fora de contexto, pessoas que não falam inglês não tiveram dificuldade em entender o significado do “sobre anglófilo”.

Se a gente pensar bem, não tem como ser diferente. A história de todas as línguas está repleta de casos – sem qualquer relação com estrangeirismos – em que uma palavra velha ganha um sentido novo. No português, por exemplo, o “logo” existiu por muito tempo com o sentido de “em breve” (“Venha logo”) para, só no século XVII, ganhar o sentido de “portanto” (“Penso, logo existo”). E o que dizer do “mal”, que um dia significou apenas “de modo ruim” (“Eu canto mal”) e depois ganhou o sentido de “assim que” (“Mal eu começo a cantar, todo mundo sai correndo”)? Nesses dois casos, aconteceu no passado o que estamos vendo agora acontecer com o “sobre”: o desenvolvimento de usos novos para palavras velhas. E não consta que em qualquer uma dessas situações as pessoas tenham ficado particularmente confusas – ou esses usos novos não teriam se estabelecido na língua.

Mesmo no universo dos estrangeirismos modernos, o caso de “sobre” não é o único em que uma expressão do português vem sendo adaptada para novos fins por influência do inglês. Um exemplo ainda mais legal é a expressão “Não é como se X”. Considere o “X” aqui como uma variável, que pode ser substituída por praticamente qualquer frase. Por exemplo: “Não é como se nós fôssemos melhores amigos”, ou “Não é como se eu não pudesse pagar nem um cafezinho”.

Se você apurar os ouvidos, vai ver que, em alguns círculos sociais, essa expressão tem sido usada assim, com o sentido de “A avaliação corrente sobre uma determinada situação está equivocada por ser exagerada”. Evidentemente, essa essa exata sequência de palavras (Não + é + como + se) já existia antes no português, mas esse modo específico de empregá-la é uma cortesia da língua inglesa para você (por exemplo, “It’s not like we are best friends”).

Uma cortesia, aliás, que a equipe da Superinteresssante tem aceitado de bom grado. Se você fizer uma busca por “Não é como se” no site da revista, vai encontrar um punhado de frases com o “Não é como se” anglófilo. São coisas como “Não é como se um experimento de laboratório fosse resolver os desafios da paternidade” e “Não é como se os pequenos humanos já deixassem o berço sabendo fazer tabuada”. E não é como se os leitores da Super tivessem qualquer dificuldade para interpretar.

No fim das contas, o post do Alexandre Versignassi se resume a dois argumentos que não se sustentam: não, não é verdade que o “sobre” importado seja inútil e não, não é verdade que ele dificulte a comunicação. A rigor, portanto, os estrangeirismos não fazem mal a ninguém – por isso, é tão difícil entender por que tanta gente boa, e não só o Alexandre Versignassi, parece ter aversão a eles.

A resposta, muito provavelmente, é que se trata de uma repulsa instintiva – e não de uma rejeição racional. Até certo ponto, isso é profundamente humano: faz parte de um modo de raciocínio rápido, reflexo e inconsciente que nos leva a julgar as coisas, pessoas e palavras sem a necessidade – e a lentidão – do escrutínio racional.

Mas também é profundamente humano colocar esse sistema sob suspeita. Afinal, esse tipo de rejeição – que julga primeiro e inventa argumentos a posteriori, só para justificar uma condenação prévia – frequentemente leva a conclusões erradas. Por isso, nós deveríamos refletir com calma e autocrítica sobre nossas aversões instintivas – e, se for o caso, admitir que elas não têm qualquer fundamento racional. Se fizermos isso com os estrangeirismos, vamos concluir que não há razão nenhuma para ter medo deles.

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