Delegacias de Mulheres são acolhedoras para mulheres. Só que não

Você conhece a história: em 30 de dezembro de 1976, o empresário paulista Doca Street assassinou sua mulher Ângela Diniz no município de Búzios, Rio de Janeiro. No primeiro julgamento, Doca, assassino confesso, foi condenado a apenas dois anos de prisão. A pena ridícula foi assegurada pelo argumento de que o crime teria sido cometido em “legítima defesa da honra”. Depois de uma forte mobilização social, Doca foi levado a um segundo julgamento – quando então acabou condenado a 15 anos de prisão.

O que menos gente sabe é que a indignação causada por esse caso continuou dando frutos por muito tempo. E uma das suas consequências mais notáveis foi a criação das Delegacias de Mulheres (que, pelo Brasil afora, recebem os mais diferentes nomes: Delegacia de Atendimento à Mulher, Delegacia de Defesa da Mulher, Delegacia da Mulher, e por aí vai).

A premissa é simples: delegados normalmente são homens, e homens tendem a tomar o partido de outros homens. Por isso, quando reúnem coragem para denunciar situações de violência doméstica, as mulheres costumam sentir que não estão sendo verdadeiramente ouvidas – é como chamar a polícia quando você está sendo espancado pela polícia. Daí veio a ideia: e se nós criássemos delegacias exclusivamente femininas? Nesse lugar, mulheres vítimas de violências doméstica seriam de fato escutadas e acolhidas, e as chances de punição aos agressores seriam maiores. Assim nasceram as Delegacias de Mulheres (DMs).

Legal. Mas onde quer que alguém tenha uma ideia aparentemente brilhante, haverá um cientista para se perguntar: essa ideia faz sentido mesmo? Por mais que ela seja verossímil, será que é verdadeira? E assim nasce a pesquisa científica.

Muito bem: em um estudo publicado em 2008, a linguista brasileira Ana Cristina Ostermann se propôs a descobrir se, no caso das DMs, a teoria anda de mãos dadas com a prática. Para isso, ela visitou duas instituições onde mulheres vitimas de violência doméstica podem denunciar seus companheiros: uma Delegacia da Mulher e um centro feminista de intervenção na violência contra a mulher, conhecido como CIV. Nos dois locais, quem toma os depoimentos são mulheres, mas suas formações são diferentes: enquanto, nas DMs, as vítimas são recebidas por policiais, no CIV a tarefa fica a cargo de psicólogas e assistentes sociais.

O trabalho da pesquisadora começou pela gravação, em áudio, dos depoimentos ela gravou em áudio tanto os depoimentos das vítimas quantas as falas das profissionais responsáveis por recebê-las.

Depois, ela transcreveu todas as gravações e se debruçou sobre as conversas.

O objetivo da pesquisadora era encontrar padrões conversacionais – isto é, formas de conduzir a conversa que fossem típicas da Delegacia da Mulher e do CIV. Especificamente, ela tentava responder a seguinte pergunta : será que as profissionais  do CIV dialogam com as vítimas da mesma maneira que as delegadas da DM? Ou será que o tipo de interação que uma mulher encontra num CIV é fundamentalmente diferente daquele encontrado numa DM?

Ao analisar os dados, a Ana Cristina Ostermann identificou quatro tipos de reações das profissionais (tanto do CIV quanto da delegacia) diante das falas das vítimas: o silêncio (isto é, a ausência de resposta), o emprego de continuadores, as respostas relacionadas à fala da vítima, e as respostas com mudança de assunto. Vamos entender melhor cada uma delas:

> Silêncio (ou ausência de resposta): corresponde aos casos em que a vítima dá a entender que já encerrou sua fala e, mesmo assim, o profissional não toma a palavra – o que faz com que a vítima, por assim dizer, “retome o fôlego” e continue falando.

> Continuadores: são partículas como mmm, uh ou ahã, usadas quando a vítima dá a entender que já encerrou sua fala e, apesar disso, o profissional não quer tomar a palavra – nessa situação, ele usa essas partículas como uma forma de dizer “estou acompanhando, continue falando”.

> Respostas relacionadas à fala da vítima: correspondem aos casos em que as profissionais tomam a palavra e fazem alguma observação diretamente relacionada ao assunto sobre o qual a vítima estava falando no momento imediatamente anterior.

> Respostas com mudança de assunto: correspondem aos casos em que as profissionais tomam a palavra e fazem alguma observação sobre um assunto que diverge fortemente do assunto sobre o qual a vítima estava falando no momento imediatamente anterior.

Note que esses quatro tipos de reações podem ser agrupados em duas categorias: os dois primeiros são reações possíveis quando a profissional se recusa a tomar a palavra; os dois últimos são reações que acontecem quando a profissional opta por tomar a palavra. Comparando-os dois a dois, você pode notar que há sempre uma reação mais empática e uma, por assim dizer, mais antipática. No primeiro par, soltar uma interjeição do tipo “ahã” parece bem mais simpático do que ficar encarando a vítima, que já não tem mais nada a dizer, em absoluto silêncio. No segundo par, fazer uma observação sobre o tema que estava em pauta é, certamente, mais agradável do que mudar abruptamente de assunto (um comportamento que parece sugerir uma certa desconsideração pela fala do outro).

Ou seja: se você está buscando diálogos em que a profissional se mostre solidária com a vítima, deve procurar por conversas com muitos continuadores e muitas respostas relacionadas à fala anterior (e, inversamente, poucos casos de silêncios e de respostas com mudança de assunto). Por outro lado, se está procurando diálogos que revelem alguma forma de hostilidade ou negligência, deve procurar por conversas com muitos casos de silêncios e respostas com mudança de assunto (e, inversamente, poucos continuadores e poucas respostas relacionadas à fala anterior).

E o que a Ana Cristina Ostermann encontrou? Vejamos:

Como você pode ver, nossos dois pares de reações estão, em alguma medida, espelhados. No grupo das reações em que a profissional se recusa a tomar a palavra, há mais silêncios na DM do que no CIV – e, inversamente, mais continuadores no CIV do que na DM. No grupo das reações em que a profissional toma a palavra para si, há mais respostas relacionadas à fala da vítima no CIV do que na DM – e, inversamente, mais respostas com mudança de assunto na DM do que no CIV.

A conclusão, você já deve ter adivinhado: para as vítimas, a vida é mais fácil no CIV do que na DM. Nas palavras da própria Ana Cristina Ostermann, os diálogos do CIV “parecem tender para um maior grau de solidariedade”. Na DM, por outro lado, os encontros são “menos cooperativos”, e o comportamento das policiais revela “falta de interesse nas contribuições feitas pela vítima”.

Mas pera: o grande argumento para a criação das DMs não era a ideia de que as mulheres seriam mais bem atendidas se as policiais fossem mulheres? Pois é. Tudo indica que, em algum momento, o plano descarrilhou: o fato de serem atendidas por mulheres não livra as vítimas de violência doméstica de silêncios constrangedores e descaso com seus relatos. Tudo isso num momento em que elas estão particularmente fragilizadas.

Mas por que isso? Afinal, as profissionais que atuam nas DMs, justamente por serem mulheres, não conseguem se colocar no lugar daquelas vítimas? Não são capazes sentir empatia?! É aí que mora o problema: se é verdade que essas policiais são mulheres, também é verdade que essas mulheres são policiais. Ser policial também é, em outras palavras, parte da sua identidade – e uma parte que aflora, não supreendentemente, quando elas estão no seu horário e local de trabalho. Naquele momento, portanto, elas se comportam como boas policiais – o que significa, na prática, controlar a narrativa das vítimas e zelar por uma atitude fria e distanciada, bem pouco empática.

Pois é. Olhando por esse prisma, a explicação parece óbvia. Tão óbvia que dá até para pensar: onde nós estávamos com a cabeça quando imaginamos que, só por serem mulheres, essas profissionais demonstrariam automaticamente empatia e solidariedade? Resposta: estávamos com a cabeça na nossa concepção tradicional de gênero, segundo a qual uma pessoa é homem ou é mulher. Esse estudo demonstra claramente que isso não é verdade. O “comportamento feminino” é uma estratégia que as pessoas (homens e mulheres) podem sacar da cartola em situações específicas, quando lhes convém. Ou seja: faz mais sentido dizer que as pessoas agem como homens ou agem como mulheres, em contextos particulares, do que supor que ser homem ou ser mulher defina irrevogavelmente o modo como elas se comportam.

E, no fundo, tudo é assim. Nós estamos acostumados a pensar que homens são de Marte, mulheres são de Vênus, jovens são descolados e cariocas não gostam de sinal fechado. Mas fica mais fácil entender o mundo se imaginarmos que esses comportamentos são estratégias que as pessoas adotam para se apresentar socialmente – roupas identitárias que elas vestem e das quais podem perfeitamente se desfazer, a depender da ocasião. Sem dúvida, as policiais das DMs são capazes de demonstrar solidariedade e empatia. Mas tendem a evitar esse comportamento quando estão vestidas – literal e metaforicamente – de policiais.

Isso significa que as DMs não servem para nada? Não. De jeito nenhum. Em hipótese alguma. (Fui enfático o suficiente? Ok, seguindo.) Até porque, para começo de conversa, o estudo da Ana Cristina Ostermann não comparou DMs a delegacias comuns, lideradas por delegados. Então, por mais a atitude das policiais não tenha sido propriamente acolhedora, é possível que o comportamento dos homens seja ainda pior. Além disso, o estudo focalizou apenas uma DM e um CIV; então, por mais que isso soe improvável, não dá para descartar a hipótese de que ele reflita a realidade de uma delegacia particularmente ruim (porque hostil às vítimas) e um CIV particularmente bom (porque empático com as vítimas).

Seja como for, essa análise no mínimo coloca um pulga atrás da nossa orelha. Ela mostra que ser mulher não é garantia de nada: as profissionais das DMs precisam aprender a agir de forma acolhedora. E, claro, isso não vale apenas para policiais: você provavelmente já se deparou com um médico hostil, um chefe passivo-agressivo, um professor tóxico. A boa notícia é que, quando os padrões conversacionais dessas pessoas são escrutinados de forma objetiva, eles ficam visíveis a olho nu – e esse é o primeiro passo para modificá-los.

QUERO SABER MAIS

Então toma:

1. O artigo original da Ana Cristina Ostermann – É a indicação óbvia, já que serviu de base para este post. Pode ser encontrado, de graça, aqui.

2. Livros da Deborah Tannen (infelizmente, só em inglês) – A linguista norte-americana Deborah Tannen tem vários livros sobre padrões conversacionais, e alguns deles viraram best-sellers nos EUA. Duas obras bastante conhecidas são You just don’t understand e That‘s not what I meant (o que demonstra que também existe um padrão de títulos para livros sobre padrões conversacionais). Mas uma busca no Google rapidamente revelará outras.

3. Série Mindhunter É da Netflix, é uma série policial e é sobre linguística (ou, mais propriamente, microssociologia). Na série, uma das personagens lê um livro do Erving Goffmann, sociólogo norte-americano e um dos grandes arquitetos da ideia de que a nossa identidade é uma encenação social. Mas o livro não é mero coadjuvante: as ideias do Goffmann se materializam nas entrevistas que os protagonistas da série fazem com serial-killers.

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