Nossa churrasqueira se chama Rose – e o que você tem a ver com isso

Há alguns anos, quando a Liana e eu estávamos meio obcecados com o programa Perto do fogo, nós decidimos comprar uma churrasqueira. E, por algum motivo, não só achamos que ela precisava de um nome como decidimos que tinha cara de Rose.

Se você também tem o hábito de batizar objetos inanimados, talvez já tenha se dado conta de um fato curioso: o nome próprio que nós escolhemos para eles costuma ter relação com o gênero gramatical das palavras que os nomeiam. Como “churrasqueira” é uma palavra feminina, escolhemos um nome de mulher. Se fosse um fogão, poderíamos chamar de Arthur, Dejan, Leovegildo ou Éverton – mas provavelmente nem pensaríamos em Rose.

Por que isso? Basicamente, porque a gramática da nossa língua prega peças na nossa mente. O truque é simples. Primeiro, o português decide, arbitrariamente, que o equipamento usado para fazer churrasco será nomeado com uma palavra feminina – e isso basta para que nossa mente comece a enxergá-lo como uma mulher. Se você parar para pensar, não faz o menor sentido: nossa churrasqueira é apenas um amontoado de metal e plástico, que nem de longe lembra a fêmea de qualquer espécie. Mas a nossa mente não para para pensar: ela acredita piamente no que diz a gramática. E, por isso, na hora de batizar o objeto, nós pensamos instintivamente em nomes femininos.

Parece uma explicação ótima – e é. Mas nem por isso é consensual. Na verdade, a ideia de que a estrutura gramatical da nossa língua pode influenciar o pensamento – e, consequentemente, a maneira como enxergamos o mundo – é uma das mais controversas da história da linguística.

A história dessa controvérsia começa no início do século XX, graças a um engenheiro químico norte-americano chamado Benjamin Lee Whorf. Embora ganhasse o pão de cada dia como inspetor de uma companhia de seguros, Whorf, a certa altura, se interessou por um livro sobre o hebreu bíblico – e essa foi sua porta de entrada para os estudos linguísticos. Do hebreu ele passou para as línguas indígenas do continente americano, e em pouco tempo estava se correspondendo com linguistas profissionais e frequentando um curso de pós-graduação com Edward Sapir – uma das grandes lideranças da linguística norte-americana na época e fonte de inspiração para algumas de suas ideias.

O resultado? Sem nunca abandonar seu emprego na companhia de seguros, Whorf foi capaz de deixar dois legados para a linguística. Um deles foram descrições parciais de línguas nativas da América. O outro foi uma ideia ousada sobre a relação entre linguagem e pensamento, que entraria para a história com o nome de Hipótese de Sapir-Whorf.

A HIPÓTESE

O ponto de partida dessa hipótese é uma constatação simples: as coisas do mundo não se dividem naturalmente em categorias distintas. Pense por exemplo, na sequência de quadradinhos abaixo :

Azul
Fonte: este artigo

Quantas cores diferentes estão representadas aqui? Onde acaba uma cor e começa outra? E o mais importante: quem decide isso?

Para Whorf, quem decide é a nossa língua. Ela pode, por exemplo, considerar que todos os tons acima são variações de uma única cor. É o que faz o português, ao chamar tudo isso de “azul” (ou o inglês, ao chamar tudo de “blue”). Mas uma outra língua pode optar por dividir a sequência em dois blocos. É o que faz o russo, que usa a palavra “goluboy” para as nove primeiras tonalidades (aproximadamente) e a palavra “siniy” para as onze últimas (também aproximadamente). Veja na imagem abaixo a diferença entre as duas línguas:

Azul com palavras
Fonte: Adaptação minha sobre imagem deste artigo

O mais importante é que nenhuma dessas divisões está no mundo. Objetivamente, tudo o que existe é uma paleta contínua: uma sequência aparentemente infindável de tonalidades sem fronteiras claras entre elas. Diante disso, cada língua precisa decidir onde fatiar essa paleta. E línguas diferentes optam por fatiamentos diferentes.

Até aí, tranquilo. A parte realmente ousada da hipótese de Whorf vem agora. Para ele, uma vez que a nossa língua define o seu fatiamento, nós passamos obrigatoriamente a enxergar o mundo de acordo com ele. É como se um brasileiro e um russo de fato vissem os quadrados acima de forma diferente – muito embora eles sejam objetivamente idênticos.

Mas a percepção das cores é apenas um exemplo. Para Whorf, a língua que nós aprendemos na infância determina todos os aspectos da nossa visão de mundo: a forma como percebemos o tempo, nos orientamos no espaço e julgamos as pessoas ao nosso redor. Se você quiser, dá para resumir tudo isso em um slogan simples: os limites do nosso pensamento são os limites da nossa linguagem.

Nossa. Isso não é muito Black Mirror, mas é muito 1984. Nesse romance distópico de George Orwell, os mandachuvas de um governo totalitário inventam a novilíngua, um idioma que não tem palavras para expressar conceitos perigosos como “liberdade” e “democracia”. O raciocínio por trás do plano era simples: se a língua não disponibilizasse uma palavra para representar o conceito de liberdade, seus falantes não seriam capazes sequer de conceber essa ideia – e nunca desejariam ser livres. Mas isso faz sentido?

A QUEDA

Para muita gente, não. Embora a hipótese tenha feito sucesso nos anos 1950, ela começou a cair em desgraça logo no início da década seguinte. E o grande responsável por isso (ainda que indiretamente) tem nome e sobrenome: Noam Avram Chomsky.

Mais conhecido pelo seu ativismo político e por tuítes do Felipe Neto, Chomsky é também o maior linguista de todos os tempos. Foi ele que, nos anos 1960, fez a linguística norte-americana dar uma guinada radical: de uma ciência antropológica, preocupada em registrar a diversidade aparentemente ilimitada das línguas humanas, ela se transformou em uma empreitada filosófica, cujo objetivo último é compreender os fundamentos da Linguagem Humana (e não a estrutura de línguas particulares, como o português ou o russo).

Mas como assim “Linguagem Humana”? Grupos humanos diferentes não falam língua diferentes? Mais ou menos. Para Chomsky, isso pode ser uma ilusão. Quando você ouve português, árabe e iorubá, a impressão é a de estar diante de línguas radicalmente distintas. Mas, se você conseguir ultrapassar a névoa das palavras estranhas e sons diferentes, o que vai encontrar é uma estrutura comum: uma espécie de engrenagem gramatical universal. E, para o Chomsky, é com essa engrenagem que os linguistas devem se preocupar.

Essa mudança de ênfase do particular para o universal, da variabilidade superficial para a unidade profunda afetou a maneira como as pessoas recebiam a Hipótese de Sapir-Whorf. Afinal, se todas as línguas, lá no fundo, são iguais, não faz muito sentido supor que seus falantes percebem a realidade de formas radicalmente diferentes. A Hipótese de Sapir-Whorf aposta na ideia de que a diversidade linguística produz diversidade de pensamento, mas o contra-ataque de Chomsky arranca o mal pela raiz: para ele, a diversidade linguística nem existe – então, por favor, não vamos nem começar a falar em diversidade de pensamento, né?

Se você parar para pensar, a Hipótese de Sapir-Whorf tem mesmo todos os ingredientes de uma lenda urbana: ela é tão impressionante e excitante que acaba soando legal demais para ser verdade. Pois é: depois de um pouco de reflexão, qualquer pessoa sensata acaba concluindo que essa ideia pode até ser um ótimo argumento para obras de ficção científica, mas provavelmente não tem muito a ver com o mundo real. Afinal, o maluco do Whorf estava sugerindo que, se nós aprendermos russo, vamos começar as ver as cores de um jeito diferente? E que, se formos forçados a usar a novilíngua, vamos deixar de ansiar por liberdade e democracia? Pelo amor de Deus: alguma pessoa sensata acreditaria nisso?

A REDENÇÃO?

Por incrível que pareça, a resposta é sim: desde o início do século XXI, dezenas de pessoas aparentemente sensatas têm levado a Hipótese a sério. Claro, elas não acham que o Putin é incapaz de enxergar a semelhança cromática entre azul claro e azul escuro.  Mas acham, sim, que o Putin e o Bolsonaro percebem essas duas tonalidades de formas diferentes, pelo simples fato de terem línguas nativas diferentes (o que significa que inclinação totalitária não afeta a percepção das cores, p > 0.05). A redenção da Hipótese de Sapir-Whorf passa, como frequentemente acontece na história da ciência, por uma acomodação: ok, nossa língua não determina irrevogavelmente a maneira como percebemos o mundo, mas também não dá para negar que ela influencia de alguma maneira. 

E não dá mesmo. Tudo bem que ninguém fez um experimento com o Putin e o Bolsonaro, mas um grupos de cientistas de universidades americanas chegou perto disso: eles compararam a maneira como falantes nativos de russo e de inglês processavam distinções cromáticas dentro do espectro do “azul”. A tarefa era simples: essas pessoas viam três quadrados azuis organizados como em um triângulo (dois nos vértices da base e um no vértice superior) e tinham que indicar qual dos quadrados de baixo era percentualmente idêntico ao de cima. Assim:

Quadrados azuis
Fonte: novamente, este artigo (claramente, o único que eu conheço)

Para verificar se a percepção de russos e americanos era diferente, os pesquisadores solicitavam aos participantes que fizessem sua escolha o mais rápido possível, assim que os quadrados aparecessem na tela do computador. E, enquanto os pobres coitados estavam lá examinando vinte tons de azul, o computador ficava registrando quanto tempo eles levavam para decidir. Por trás desse método, está um princípio simples e poderoso: quanto maior a demora, maior a dificuldade de processamento. 

Agora que você entendeu como foi feito experimento, imagine dois cenários. Cenário 1: o quadrado de cima apresenta a tonalidade 10 daquele paleta de azuis que você viu lá no início deste texto – ou seja, uma cor a que os russos ainda se referem como “siniy” (azul escuro), mas que está a um passo da faixa cromática do “goluboy” (azul claro). Além disso, o quadrado que corresponde à resposta errada exibe a tonalidade 8 – o que significa que ele já está no território do “goluboy”, embora seja visualmente bem parecido com o quadrado superior. 

Cenário 2: o quadrado superior segue apresentando a tonalidade 10 (portanto, a um passo do “goluboy”) mas, desta vez, o quadrado correspondente à resposta errada exibe a tonalidade 12. Objetivamente, portanto, a distância cromática entre o quadrado superior e o quadrado errado é a mesma nos dois cenários: exatamente duas tonalidades. No cenário 2, contudo, o quadrado errado habita o território do “siniy”, e não o do “goluboy”. 

Agora vem a surpresa: para os russos (mas não para os americanos!), foi muito mais fácil detectar a diferença cromática entre o quadrado errado e o quadrado superior no cenário 1 do que cenário 2. E por que isso é surpreendente? Porque , se a nossa percepção das cores dependesse apenas de fatores objetivos, não haveria nenhuma razão para que isso acontecesse. De fato, a única explicação possível para essa diferença reside na língua: os russos tiveram mais facilidade em identificar diferenças que são linguisticamente marcadas, e penaram um pouco mais para detectar distinções que são irrelevantes na língua deles. O que nos leva a uma conclusão inevitável: a língua que nós falamos afeta o modo como percebemos o mundo.

E, o melhor de tudo, há fortes evidências de que isso não se restringe à percepção das cores. Por exemplo, os Kuuk Thaayorre, habitantes de uma pequena comunidade aborígene no Norte da Austrália, têm um senso de orientação espacial imensamente mais avançado que o meu e o seu. Isso acontece porque a língua que eles aprendem desde bebês naturalmente situa as coisas em termos de referenciais fixos (tipo “o copo está ao norte do prato”), e não em termos de referenciais relativos à posição do observador (tipo “o copo está à esquerda do prato”). Como os Kuuk Thaayore são forçados, pela sua língua, a se manter permanentemente situados em relação aos pontos cardeais (e suas subdivisões), eles acabaram por desenvolver habilidades de navegação e orientação espacial que para nós, meros falantes do português, parecem sobre-humanas.

Quer mais? Um experimento simples, mas intrigante, comparou a maneira como falantes do alemão e do espanhol caracterizavam uma série de objetos inanimados, como pontes e chaves. A título de exemplo, veja o que aconteceu com as pontes: enquanto os alemães atribuíram a elas propriedades associadas a estereótipos de feminilidade (como elegância, fragilidade e pacificidade), falantes do espanhol pensaram com frequência em atributos estereotipadamente associados ao universo masculino (como força, robustez e periculosidade). A explicação para essa diferença, você já adivinhou, está na língua: o objeto PONTE é nomeado por uma palavra feminina em alemão (“Brücke”) e por uma palavra masculina em espanhol (“puente”). Evidentemente, esses resultados mostram que estereótipos machistas estão enraizados na cabeça das pessoas, mas isso não é exatamente uma novidade. A grande descoberta aqui é o fato de que esses estereótipos podem ser transferidos para objetos inanimados graças a uma propriedade gramatical arbitrária de algumas línguas.

MAS A HISTÓRIA NÃO ACABOU

Pois é: apesar de todas as evidências em favor da Hipótese de Sapir-Whorf, muitos cientistas ainda não estão convencidos. Que o digam três pesquisadores da Universidade de Essex, na Inglaterra, que se deram ao trabalho de revisar 43 estudos empíricos sobre a relação entre gênero gramatical (masculino e feminino) e gênero social / sexo biológico. Em português claro, eles examinaram cuidadosamente 43 pesquisas que, em linhas gerais, buscavam responder a seguinte pergunta: o fato de um objeto ser nomeado por uma palavra gramaticalmente masculina ou feminina nos induz a “enxergá-lo” como um homem ou uma mulher? 

O resultado deixaria Whorf desapontado: segundo os pesquisadores, apenas 32% dos estudos analisados forneceram evidências claras em favor da Hipótese que leva o nome dele – os demais se dividiram entre dar respaldo apenas parcial à hipótese (24%) e não fornecer evidências favoráveis em absoluto (43%)).  Mas, mais do que isso, os pesquisadores descobriram que o resultado dependia muito do tipo de experimento. Por exemplo, quando participantes precisaram criar uma voz para objetos inanimados, eles tenderam a fazer voz de homem para objetos com nomes masculinos e voz de mulher para objetos com nomes femininos (ou seja, ponto para Whorf). Por outro lado, quando eles precisaram julgar o grau de similaridade entre objetos inanimados e rostos humanos (a ideia aqui é que eles considerariam um objeto com nome feminino mais parecido com uma mulher do que com um homem), os resultados foram menos conclusivos.

Moral da história: o debate segue quente, e não dá nenhum sinal de arrefecimento. Mas, tudo pesado, a balança da ciência tem pendido cada vez mais para o lado de Whorf. No mínimo, tem ficado claro que a intuição dele tinha um fundo verdade: embora não dê para controlar sociedades inteiras apenas usando um dicionário (como em 1984), tudo indica que alguma manipulação mental nossas línguas conseguem fazer. Se isso é verdade, então não é por acaso que a nossa churrasqueira se chama Rose – e, reparando bem, ela até parece mesmo um objeto forte e empoderado.

QUERO APRENDER DE VERDADE

Este post é uma introdução bem superficial à Hipótese de Sapir-Whorf e à sua história. Felizmente para você, há outros lugares em que é possível aprender de verdade sobre essa ideia (ou pelo menos se divertir com ela). Seguem algumas sugestões:

TED Talk da Lera Boroditsky – A Lera Boroditsky é uma das principais defensoras da Hipótese de Sapir-Whorf entre os cientistas cognitivos contemporâneos. Neste vídeo, ela resume sua pesquisa no estilo TED Talk: rápido, fácil e legal.

Livro Through the language glass (infelizmente, só em inglês) – Uma apresentação clara e didática da Hipótese de Sapir-Whorf (e dos debates acaloradas que ela suscita). Como fã de divulgação científica, super recomendo.

Livro O instinto da linguagemNão é, nem de longe, só sobre a Hipótese de Sapir-Whorf, mas discute um pouquinho o tema – e, de qualquer maneira, vale a leitura também pelos outros assuntos abordados e pela qualidade do texto. 

Livro Linguistic relativity (também só em inglês) – Dos três livros, é o mais acadêmico. Para os padrões da academia, é uma leitura simples; para os não-iniciados, pode ser desafiador em algumas passagens. 

Livro A criação imperfeitaNão tem nada a ver com a Hipótese de Sapir-Whorf. Então, o que ele está fazendo aqui? Pois é, a conexão é distante – senta que lá vem a história. Esse livro, escrito pelo físico Marcelo Gleiser, fala sobre a fixação dos físicos por encontrar uma “unidade profunda” por trás da “variabilidade superficial” – e sobre como isso afetou o desenvolvimento das suas teorias (bom, pelo menos foi assim que eu li). Embora o livro não fale nada sobre isso, o fato é que esse movimento em busca de uma “unidade profunda” também marcou presença na linguística – e foi um dos responsáveis pela derrocada da Hipótese de Sapir-Whorf. (Eu falei que a conexão era distante.)

Filme A chegadaNão é incrível, mas é um bom filme e uma exploração ficcional interessante das consequências de uma versão radical da Hipótese de Sapir-Whorf (e, o mais importante, tem uma linguista como protagonista).

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