Nossa churrasqueira se chama Rose – e o que você tem a ver com isso

No ano passado, quando a Liana e eu estávamos meio obcecados com o programa Perto do fogo, nós decidimos comprar uma churrasqueira. E, por algum motivo, não só achamos que ela precisava de um nome como decidimos que tinha cara de Rose.

Se você também tem o hábito de batizar objetos inanimados, talvez já tenha se dado conta de um fato curioso: o nome próprio que nós escolhemos para eles costuma ter relação com o gênero gramatical das palavras que os nomeiam. Como “churrasqueira” é uma palavra feminina, escolhemos um nome de mulher. Se fosse um fogão, poderíamos chamar de Juan, Arthur, Dejan ou Leovegildo – mas provavelmente nem pensaríamos em Rose.

Por que isso? Basicamente, porque a gramática da nossa língua prega peças na nossa mente. O truque é simples. Primeiro, o português decide, arbitrariamente, que o equipamento usado para fazer churrasco será nomeado com uma palavra feminina – e isso basta para que nossa mente comece a enxergá-lo como uma mulher. Se você parar para pensar, não faz o menor sentido: nossa churrasqueira é apenas um amontoado de metal e plástico, que nem de longe lembra a fêmea de qualquer espécie animal. Mas a nossa mente não para para pensar: ela acredita piamente no que diz a gramática. E, por isso, na hora de batizar o objeto, nós pensamos instintivamente em nomes femininos.

Parece uma explicação ótima – e é. Mas nem por isso é consensual. Na verdade, a ideia de que a estrutura gramatical da nossa língua pode influenciar o pensamento – e, consequentemente, a maneira como enxergamos o mundo – é uma das mais controversas da história da linguística.

A história dessa controvérsia começa no início do século XX, graças sobretudo a Benjamin Lee Whorf. Embora fosse um linguista amador – ele se formou em engenharia química e bateu ponto a vida inteira como inspetor de uma companhia de seguros -, Whorf entrou para a história da linguística com uma hipótese que leva o seu nome e o do seu mentor.

um engenheiro químico e linguista amador norte-americano. Além de contribuir com a descrição de diversas línguas indígenas do continente americano, Whorf entrou para a história com uma hipótese ousada sobre a relação entre linguagem e pensamento

Embora ganhasse o pão de cada dia como inspetor de uma companhia de seguros, Whorf se interessou pelos estudos linguísticos quando começou a aprender o hebreu bíblico. Daí ele passou para as línguas indígenas do continente americano, e em pouco tempo estava se correspondendo com linguistas profissionais, frequentando cursos de pós-graduação e participando ativamente da comunidade acadêmica.

Resultado: sem nunca abandonar seu emprego na companhia de seguros, Whorf foi capaz de deixar dois grandes legados para a linguística. Um deles foi a descrição de diversas línguas indígenas do continente americano. O outro foi uma ideia ousada sobre a relação entre linguagem e pensamento, que entraria para a história com o nome de Hipótese de Sapir-Whorf (uma homenagem não só ao próprio Whorf mas também ao seu mentor intelectual, o linguista Edward Sapir) ou Hipótese do Relativismo Linguístico.

A história da

A HIPÓTESE

O ponto de partida dessa hipótese é uma constatação simples: as coisas do mundo não se dividem naturalmente em categorias distintas. Pense por exemplo, na sequência de quadradinhos abaixo:

Quantas cores diferentes estão representadas aqui? Onde acaba uma cor e começa outra? E o mais importante: quem decide isso?

Para Whorf, quem decide é a nossa língua. Ela pode, por exemplo, dividir a sequência acima em dois blocos, chamando um de “verde” e outro de “azul”. É o que faz o português. Mas uma outra língua pode optar por organizar sequência em três blocos. É o que faz o russo, que usa a palavra “yyyyy” para as duas primeiras tonalidades e a palavra “zzzzzz” para o terceiro. Veja abaixo a diferença entre as duas línguas:

O mais importante é que nenhuma dessas divisões está no mundo. Objetivamente, tudo o que existe é um contínuo de cores: uma sequência aparentemente infindável de tonalidades sem fronteiras claras entre elas. Diante disso, cada língua precisa decidir onde fatiar esse contínuo. E línguas diferentes optam por fatiamentos diferentes.

Até aí, tranquilo. A parte realmente ousada da hipótese de Whorf vem agora. Para ele, uma vez que a nossa língua define o seu fatiamento, nós passamos obrigatoriamente a enxergar o mundo de acordo com elas. É como se um brasileiro e um russo de fato vissem os quadrados acima de forma diferente – muito embora eles sejam objetivamente idênticos.

Mas a percepção das cores é apenas um exemplo. Para Whorf, a língua que nós aprendemos na infância determina todos os aspectos da nossa visão de mundo: a forma como percebemos o tempo, nos orientamos no espaço e julgamos as pessoas ao nosso redor. Se você quiser, dá para resumir tudo isso em um slogan simples: os limites do nosso pensamento são os limites da nossa linguagem.

Nossa. Isso não é muito Black Mirror, mas é muito 1984. Nesse romance distópico de George Orwell, os mandachuvas de um governo totalitário inventam uma língua que não tem palavras para expressar conceitos perigosos como “liberdade”, “democracia” e “petista”. O raciocínio por trás do plano era simples: se a língua não disponibilizasse uma palavra para representar o conceito de liberdade, seus falantes não seriam capazes sequer de conceber essa ideia – e nunca desejariam ser livres. Mas isso faz sentido?

A QUEDA

Para muita gente, não. Embora a hipótese tenha feito sucesso nos anos 1950, ela caiu em desgraça cerca de dez anos após a morte de Whorf. E o grande responsável por isso (ainda que indiretamente) tem nome e sobrenome: Noam Avram Chomsky.

Mais conhecido pelo seu ativismo político, Chomsky é também o maior linguista de todos os tempos. Foi ele que, nos anos 1960, fez a linguística norte-americana dar uma guinada radical: de uma ciência antropológica, preocupada em registrar a diversidade aparentemente ilimitada das línguas humanas, ela se transformou em uma empreitada filosófica, cujo objetivo último é compreender os fundamentos da Linguagem Humana (e não a estrutura de línguas particulares, como o português ou o japonês).

Mas como assim Linguagem Humana? Grupos humanos diferentes não falam língua diferentes? Mais ou menos. Para Chomsky, isso pode ser uma ilusão. Quando você ouve tupi, português e iorubá, a impressão é a de estar diante de línguas radicalmente distintas. Mas, se você conseguir ultrapassar a névoa das palavras estranhas e sons diferentes, o que vai encontrar é uma estrutura comum: uma espécie de engrenagem gramatical universal. Um esqueleto único para todas as línguas do mundo.

Essa mudança de ênfase – do particular para o universal, da variabilidade superficial para a unidade profunda- afetou a maneira como as pessoas recebiam a Hipótese de Sapir-Whorf.

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